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Construindo pontes entre agricultura e biodiversidade

Por Fabíola Ortiz

Rio de Janeiro ─ Em mundo cada vez onde reina a máxima de garantir alimentos para a população mundial, a conservação da biodiversidade pode parecer um obstáculo à necessidade de abrir novas áreas para a agricultura. Como então conciliar segurança alimentar e práticas agrícolas que tenham como contrapartida a manutenção da diversidade biológica?

O ambientalista norte-americano Thomas Lovejoy, presidente do Centro H. John Heinz III de Ciência, Economia e Meio Ambiente, é uma das cabeças em um movimento global que acredita ser possível equilibrar esta equação que, para muitos, parece ser impossível equalizar.

"A novidade é integrar a conservação de recursos biológicos com agricultura e evitar um conflito que empobrece o futuro do planeta e da própria produção agrícola", disse a ((o))eco Lovejoy, que já atuou como conselheiro chefe de biodiversidade do Banco Mundial.

Para o ambientalista, uma gestão integrada que seja capaz de prevenir a degradação do solo, restaurar áreas degradadas e administrar sistemas agrícolas que ajudem a enriquecer a terra a fim de conseguir maior produtividade é uma das saídas, ao invés de manter uma agricultura que esteja sempre destruindo a biodiversidade.


Construindo pontes

"A agricultura ideal é aquela que produz sem desperdício ou poluição."

Lovejoy é uma das 20 cabeças de uma iniciativa internacional que pretende abrir um espaço para debates entre cientistas, governos e empresas a fim de criar novos paradigmas para políticas e práticas agrícolas. A ambição é atender as necessidades de uma população crescente e, ao mesmo tempo, garantir a conservação a longo prazo da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.

Lançada na última sexta-feira, dia 12 de julho, no Rio de Janeiro, a "Bridging Agriculture and Conservation Initiative" (Iniciativa Construindo Pontes entre Agricultura e Conservação) reúne líderes e pensadores globais em agricultura, conservação e sustentabilidade.

O grupo é liderado pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e pela Bioversity International, um centro internacional de pesquisa sem fins lucrativos. A meta é reunir, ao longo de dois anos, evidências científicas a partir do trabalho de um grupo de 25 pesquisadores em todo o mundo e apresentar práticas economicamente viáveis para a comunidade internacional e para governos locais.

Alimentar a população em grande escala e conservar a natureza não deve ser necessariamente um conflito, argumenta Lovejoy. "A questão é olhar a agricultura como inserida numa paisagem natural. A agricultura ideal é aquela que produz sem desperdício ou poluição. Esta é uma grande questão hoje na produção agrícola que influencia nos ciclos hidrológicos e cria zonas degradadas sem oxigênio. Temos que produzir sistemas mais interligados", defendeu.

Interligar sistemas significa tentar minimizar a erosão dos solos, proteger lençóis freáticos e a biodiversidade que ainda existe, além de melhorar a produtividade sem gerar desperdício.

Um outro modelo de agricultura

"O desafio hoje é reunir na mesma mesa de discussão pessoas que lidam com agricultura e com a conservação da biodivesidade."

Segundo a Bioversity International, não basta apenas conservar áreas protegidas, pois seria apenas garantir a proteção de 15 a 17% da superfície da Terra. Grande parte das porções de terra está nas mãos de produtores agrícolas.

No passado, os esforços eram destinados a produzir mais controlando o ambiente com irrigação e uso de fertilizantes e agrotóxicos. O desafio hoje é reunir na mesma mesa de discussão pessoas que lidam com agricultura e com a conservação da biodivesidade.

"Isso não ocorria no passado, tentamos falar na mesma língua e chegar a uma compreensão comum de qual deve ser o novo caminho a seguir com ideias e mudanças fundamentais para o modelo da agricultura", disse Emile Frison, diretor geral da Bioversity.

O grupo se reuniu pela primeira vez e contou com membros do CGIAR (Consultative Group on International Agricultural Research), uma parceria global de pesquisa para a segurança alimentar, além de representantes do governo brasileiro, do PNUMA, IUCN e Wildlife Conservation Society.

Frison anunciou que o foco será direcionar os esforços para prover um modelo de agricultura mais resiliente e que também conserve a biodiversidade. "Para convencer as pessoas de que temos que mudar os paradigmas, é preciso ter evidências sólidas de cientistas e mensagens de grandes líderes que atestem a veracidade dessas ideias. E faremos isso nos próximos dois anos".

O passo seguinte será traduzir o conhecimento científico em uma agenda de políticas. "Precisamos elaborar mensagens claras sobre o que funciona em termos práticos e econômicos".

Para Frison, o Brasil pode liderar essa frente ao ser capaz de transmitir uma "mensagem clara" para as múltiplas dimensões de uma agricultura sustentável.

"Ainda não temos países em mente para serem objetos específicos de estudo, mas acho que o Brasil pode liderar. A ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, apoia fortemente a necessidade de se ter um modelo diferente. Temos um ambiente político receptivo", disse.


Lavoura-pecuária-floresta

Na avaliação do presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Maurício Lopes, foram poucos os países que conseguiram fazer o que o Brasil fez em quatro décadas na agricultura.

"O Brasil conseguiu, em 40 anos, superar o seu problema de insegurança alimentar e se projetar como um grande provedor para o mundo. Podemos dizer que nenhum país teve uma agricultura que caminhou tão firmemente de forma tão determinada na direção da sustentabilidade quanto a agricultura brasileira", argumentou.

Lopes destacou três avanços que considerou serem fundamentais no país: desde a transformação de grandes extensões de solos pobres e ácidos em solos férteis, assim como a "tropicalização dos cultivos", e ainda o que afirma ser a construção de uma plataforma de práticas sustentáveis.

O grande desafio, neste momento, admitiu Lopes, é integrar sistemas lavoura-pecuária-floresta. "O Brasil é uma vitrine para essa iniciativa. A despeito de muitos no mundo acharem que a agricultura brasileira é agressiva e destrutiva. O Brasil desenvolveu um conceito próprio de agricultura tropical competitiva".

Ao passo de aumentar a eficiência e a produtividade, o caminho, afirmou o presidente da Embrapa, será assegurar a capacidade de fixar carbono versus emissão de gases de efeito estufa.

Leia a publicação original aqui.

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