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Documento traz impactos das mudanças climáticas no Brasil


Pesquisadores de diferentes estados estiveram reunidos para descortinar a segunda parte do primeiro relatório nacional de mudanças climáticas, elaborado pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). O lançamento ocorreu no dia 25 de outubro de 2013, na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), em São Conrado, no Rio.

O documento destaca, entre outras conclusões, aumento da seca no Nordeste e de chuvas no Sudeste, aumento do nível do mar, perda de biodiversidade, possibilidade de mais doenças como dengue e leptospirose, vulnerabilidade da região costeira do país e perdas significativas na agricultura.

Veja a repercussão do evento na imprensa.

Na mesa de debate, além dos membros do Painel, estiveram presentes também o presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, Israel Klabin; Darren Evans - UK Department for International Development, Embaixada do Reino Unido no Brasil; Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas; e Cynthia Rosenzweig, pesquisadora sênior do NASA Goddard Institute for Space Studies, nos Estados Unidos, que ganhou notoriedade mundial após ser premiada no ano passado pela revista Nature por ter previsto, com anos de antecedência, o furacão Sandy que avançou sobre a cidade de Nova York.

O PBMC é um organismo científico criado em 2009 pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente para reunir, sintetizar e avaliar informações científicas sobre os impactos relevantes das mudanças climáticas no Brasil. Desde a sua criação, o PBMC foi elaborado no mesmo modelo do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), estabelecido em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para fornecer informações científicas, técnicas e socioeconômicas relevantes para o entendimento das mudanças climáticas.

Nos últimos três anos, o PBMC vem reunindo esforços de 345 pesquisadores de todo o país, das mais diferentes áreas, para elaborar o primeiro Relatório de Avaliação nacional (RAN1) do organismo. Trata-se de um documento contendo o estado da arte sobre alterações climáticas, as causas, vulnerabilidades, os impactos socioambientais e econômicos consequentes dessas mudanças, as projeções para as próximas décadas e as maneiras de amenizar os impactos (adaptação) e reduzir a emissão de gases poluentes (mitigação) no Brasil.

O RAN1 foi organizado em três volumes, elaborados por três grupos de trabalhos (GT) distintos. O sumário do GT1 trata da base científica das mudanças climáticas, englobando as conclusões de diversos estudos feitos de 2007 ao início de 2013 a respeito das mudanças climáticas no país. Já o segundo volume do relatório, que será debatido no evento, analisa os impactos provocados por essas alterações climáticas, a vulnerabilidade dos sistemas naturais, as consequências dessas mudanças e as possibilidades de como a sociedade e os biomas podem se adaptar às alterações. Por fim, o terceiro volume do documento apresenta um diagnóstico para a questão das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, além de propor soluções para combater um dos principais motivos das mudanças climáticas: taxas alarmantes de emissões de  gases de efeito estufa. Os sumários dos volumes 2 e 3 serão apresentadas em outubro e em novembro deste ano, respectivamente.

A compilação de todo esse conhecimento técnico-científico presente nos diversos estudos já realizados até agora, somados ao trabalho dos três grupos que integram o PBMC, marca uma mudança histórica no país. De posse de documentos completos e informações valiosas, os líderes brasileiros - e toda a sociedade - terão informações que poderão auxiliar a tomada de decisão e subsidiar políticas públicas. Os dados do documento também podem colaborar para sinalizar e implementar estratégias mais efetivas para a redução das emissões  de gases poluentes em diferentes regiões do país, assim como maneiras de adaptação às mudanças do clima.

Alguns dos principais pontos levantados pelo relatório

Temperatura e biodiversidade
A temperatura média no país pode subir 6ºC até o final do século. Com isso as principais consequências são aumento nos períodos mais frequentes e intensos de cheias e secas, riscos de deslizamentos de encostas, migração de pragas e fungos, proliferação de insetos transmissores de dengue e malária. O aumento da temperatura ainda afetará alguns setores da agricultura e pode causar prejuízo de até R$ 7 bilhões: diminuição de 6% do potencial brasileiro de pesca, 24% da produtividade da soja, 9,7% da produção de café arábica, 16% da produção de milho, 7,5% da produção de arroz, 4,7% da produção de algodão, 47% menor a biodiversidade no Cerrado e 44% na Caatinga, além de diminuir também os reservatórios de hidrelétricas. Podemos incluir aqui também os riscos à saúde, principalmente os relacionados ao sistema respiratório de quem vive nas grandes cidades. A umidade mais baixa favorece a concentração de monóxido de carbono (CO), na atmosfera. Em algumas regiões afastadas o problema pode ser ainda maior, pois a escassez de chuva reflete na qualidade da água e, consequentemente, na contaminação de alimentos.

Economia
A agricultura será o setor mais atingido. A alteração nos regimes de chuva é o principal motivo. Ainda que não tenha alteração na quantidade de chuva, a elevação da temperatura média anual deve reduzir a umidade no solo. Ou seja, esse fator prejudicará a agricultura em regiões muito secas e com escassez de água constante, como o semiárido nordestino. O cultivo de milho, arroz, feijão, algodão e mandioca terá perda significativa de produção. Como uma bola de neve, o cenário mais provável é que se intensifique a pobreza da população dependente dessas culturas agrícolas e parte dela migrará para as cidades, impactando a infraestrutura da região. Desde 2000, quando se começou a observar a queda na produção, o setor já soma perdas que chegam a R$ 5 bilhões. Esse número pode alcançar R$ 7,4 bilhões em 2020 e R$ 14 bilhões em 2070. O agronegócio responde hoje por 24% do PIB nacional.

Poluição e volume de chuva
A concentração de CO2 (dióxido de carbono) no efeito estufa vem chegando a níveis alarmantes. Em maio deste ano atingiu a marca de 400 partes por milhão (ppm). As projeções, de acordo com a tendência atual, são que o elemento alcance 450ppm em três décadas. Caso isso se confirme, a temperatura média anual até 2100 nas grandes regiões do país deve subir entre 3ºC e 6ºC, quando comparadas com o século anterior. Os números variam de acordo com os níveis de gazes de efeito estufa lançados até final do século. Isso pode afetar a produção de chuva em diferentes biomas. Os índices de pluviosidade devem cair 40% na Amazônia e em áreas de caatinga. Por outro lado, a quantidade estimada de chuva nos pampas deve subir um terço. De uma forma geral, o relatório aponta para o aumento de períodos de seca prolongada e chuva forte, assim como o possível surgimento de fenômenos naturais com forte capacidade de destruição.

Políticas agrícolas, urbanas e industriais
Faltam avanços na política de produção rural. Elas permanecem as mesmas desde 1970. O país é hoje um dos três maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas. A reorganização desse espaço rural favorece o aumento da produtividade no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, além de evitar mais danos à Amazônia. As medidas sugeridas passam por diversos pontos, desde o investimento em sistemas agrícolas mistos, e abandonando a prática da monocultura até a necessidade de redução de pesticidas. As novas práticas agrícolas e adaptações de práticas já existentes podem moderar riscos e danos climáticos a partir do fortalecimento e da difusão de inovações e tecnologias; a região Nordeste pode contribuir com fontes de geração de energia elétrica não emissora (hidráulicas, biomassa, maré e eólica). O relatório aponta também para a necessidade de criar sistemas de mobilidade urbana que facilitem a vida dos cidadãos e protejam o meio ambiente. Dentro desse cenário, as iniciativas propostas abrangem a ampliação das linhas de metrô e trens urbanos em regiões metropolitanas, implantação de linhas de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e BRT (Bus Rapid Transit), além da implementação de medidas de gerenciamento de tráfego e a redução do número de veículos automotivos nas áreas urbanas. A constante migração da área rural para as cidades também vai agravar os problemas de transporte, saneamento e infraestrutura habitacional. O documento aponta para a necessidade de incluir preocupações com sustentabilidade e eventos climáticos extremos, como tempestades e secas prolongadas.

Doenças fúngicas e pragas
O relatório do PBMC aponta que a mudança climática no Brasil também vai trazer um aumento de doenças fúngicas e pragas, consequências do aumento das emissões de CO2 no ar e radiação ultravioleta B. Cultivos de cereais e frutas são alguns dos exemplos que serão atingidos.

Transportes
A reformulação do sistema de transporte deve considerar as mudanças climáticas, principalmente pelo fato de que o setor é um dos maiores responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. O setor energético, que inclui os transportes, responde por 32% das emissões brasileiras. O carro particular também contribui bastante para o impacto no aquecimento global. Estudos já mostram que um passageiro que circula com um carro médio a gasolina emite de 150 a 200 gramas de gás carbônico por quilômetro. O número é muito acima do que ele emite se estiver em um ônibus, que varia entre 30g e 40g. Faixas e corredores de ônibus ajudam a melhorar ainda mais a redução nessas emissões. O BRT do Rio, por exemplo, tem potencial para deixar de jogar na atmosfera 107 mil toneladas de gás carbônico por ano. Ônibus híbrido, que combina eletricidade com diesel, é ainda melhor. Isso sem contar os transportes por trilho, como trens, ou os aquaviários.

Fotos: Divulgação FBDS

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